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O discurso entre a ação e a comunicação

Références à compléter, 2002

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Caros colegas, caros amigos, não será a uma conferência propriamente dito que vocês irão assistir. Só gostaria de fazer aqui algumas reflexões sobre o objeto deste simpósio : a relação entre ação, discurso e sociedade. É verdade que ninguém nega que o discurso esteja ligado à sociedade. Mas qual é a sua relação com a ação ?
A noção de ação é problemática em si mesma. Desde Aristóteles, a ação é pensada em relação ao sentido social que ela produz, portanto, em relação aos atores sociais que interagem entre eles para dar um sentido a seus atos e às suas vidas. Não entraremos nos detalhes de uma discussão que carrega vários séculos de controvérsias, sobretudo no campo filosófico. Ressaltaremos apenas as diferentes formas de conceber as relações entre ação e linguagem.

O ponto de vista representacional consiste em considerar que a linguagem (verbal ou visual) tem por função representar as ações dos seres humanos, as relações de agressão, de benfeitoria, de aliança ou de oposição que se instauram entre eles, as buscas subjacentes às ações, os motivos que as animam. Esta atividade linguageira é produtora de narrativas que não são por si próprias ações. Elas descrevem apenas fatos que estão se realizando, que se realizaram ou que podem se realizar numa relação de comunicação onde o produtor da narrativa (autor) propõe ao receptor (auditor ou leitor) uma descrição dos acontecimentos na qual este último pode eventualmente se projetar. Assim, dizer “Ele saiu por uma porta do castelo”, não é agir, é descrever uma ação.
Nesta perspectiva, a relação entre a linguagem e a ação é exatamente uma relação de "representação", por narrativa interposta ; o que não impede que essa narrativa possa incitar à ação por uma possível identificação do auditor ou do leitor com ela. Levanta-se, pois, uma questão sobre o tipo de articulação que pode existir entre os atores implicados na ação, tendo supostamente vivido uma experiência real, e os personagens, actantes de uma ação narrada, que buscam representá-la. Trata-se de uma fenômeno de ascripção ou de imputação de um a outro como diz Paul Ricoeur, que propõe : “a teoria narrativa ocupa uma posição central entre a teoria da ação e a teoria ética”.

O ponto de vista pragmático consiste em considerar que a linguagem é um ato dotado de uma certa força ( ilocutória, perlocutória) orientada para o interlocutor, força que, de um lado, revelaria a intenção linguageira do sujeito falante e, de outro lado, obrigaria o interlocutor (seja qual for sua natureza) a assumir, por sua vez, um comportamento linguageiro em conformidade com as características dessa força.
Assim, a linguagem é, por si própria, ação, já que ela faz ou faz fazer, seja expressando de forma direta (“Feche a porta”) ou indireta (“Está fazendo frio”). Deste ponto de vista surgiu a teoria dos "atos de fala", promovida por Austin e Searle, que estavam convencidos de que “uma teoria da linguagem é uma parte de uma teoria da ação”.
Observaremos aqui que a relação entre a linguagem e a ação é uma relação de fusão de uma na outra : não há, nesta perspectiva, combinação entre ação e linguagem, mas integração da ação na linguagem. O exemplo emblemático disso é o ato performativo (“Eu vos declaro unidos pelos laços do matrimônio”) onde o dizer, descrevendo sua própria ação, torna-se ação. A ação não é, portanto, exterior à linguagem, e esta, não possuindo existência autônoma, não pode exercer por sua vez uma influência sobre a própria linguagem.

O ponto de vista interacional consiste em considerar que a linguagem é o resultado das trocas que se produzem entre os membros de um grupo social, entre as quais encontramos interações específicas que são as interações verbais. Essas trocas são objeto de ritualizações (Goffman), e na medida em que elas comandam os comportamentos dos atores sociais, pode-se dizer que o sentido se constrói em relação com as intenções e os interesses recíprocos dos parceiros da troca em um nível intersubjetivo (Garfinkel), porque essas trocas se definem de acordo com uma certa finalidade que é a intercompreensão. É isso que funda ao mesmo tempo a ação social.
Podemos observar aqui que a relação entre linguagem e ação está ainda bastante ligada à própria atividade linguageira. Em todo caso, é o que observa J. Habermas ao dizer que as abordagens etnometodológicas “se concentram de forma tão exclusiva sobre os esforços exegéticos dos atores que as ações se reduzem a atos de fala e que as interações sociais se reduzem implicitamente a conversações”. Este ponto de vista difere, entretanto, do precedente, no sentido de que a acionalidade da linguagem já não depende só da intenção do sujeito falante, mas reside no fenômeno da "inter-acionalidade". Tal ponto de vista é aliás compartilhado, em parte, pelas teorias psicológicas da ação (Cranach, Aebli) para as quais toda ação é orientada para um fim, depende de uma intenção que é programada em plano de ação e resulta ao mesmo tempo de uma regulação das trocas controlada por normas e convenções sociais.

Resta defender um outro ponto de vista que não ignora os precedentes, chegando mesmo a integrá-los, numa problemática que denominaremos de comunicacional, e que consiste em considerar que os fatos de linguagem são essencialmente fatos de comunicação que possuem uma dupla dimensão.
Uma dimensão dita "externa", na qual os atores são identificados por atributos psicológicos e sociais, a priori independentes de seu comportamento linguageiro : sua identidade e finalidade estão ligadas a uma experiência sobre o encadeamento dos fatos e dos acontecimentos do mundo que os insere em uma lógica das ações (determinação de uma busca, procura de resultados, avaliação positiva ou negativa das conseqüências), não dependente da linguagem. Uma segunda dimensão é dita "interna", na qual os atores possuem atributos propriamente linguageiros, os quais podem remeter a aspectos psicológicos e sociais, mas desta vez enquanto "seres de linguagem" : é através de suas realizações linguageiras que esses atores se constróem uma identidade discursiva e uma intenção de influência sobre o outro, parceiro do ato de comunicação.
Este ponto de vista não está distante dos precedentes, porque podemos encontrar nele as noções de intenção pragmática do ato de linguagem, de finalidade, de troca, de interação e de regulação como princípios de base de todo ato de comunicação. Mas aqui a relação entre linguagem e ação é ao mesmo tempo externa e interna. Para mostrar isto, eu proponho fazer uma distinção entre a noção de "fim" (but) que está ligada à ação, e a de "intenção" (visée) que está ligada à linguagem.
O "fim" (but) representa o objeto de busca da ação, ou seja, um estado de equilíbrio final benéfico para o agente desta busca e, eventualmente, para um beneficiário diferente do agente. O fim é alcançado diretamente ou ao término de um percurso no qual cada etapa comporta um fim que se busca atingir, o conjunto sendo mais ou menos planificado. Para se atingir um fim, algumas condições são necessárias : (i) que um ator tenha um projeto qualquer, uma busca ; (ii) que este ator tenha o poder de iniciar uma modificação física no estado de coisas do mundo ; (iii) que ele tenha a aptidão de seguir uma lógica de encadeamento seqüencial e linear dos atos (planos de ação), apoiando-se ao mesmo tempo sobre sua experiência dos acontecimentos e sobre o conhecimento que pôde adquirir dessa experiência quanto às regras que devem ser respeitadas cada vez que ele se encontra em uma situação similar.
Nota-se, portanto, que a ação se realiza de forma unidirecional : ela se inicia no projeto de um sujeito que se torna o agente quando ele assim o decide, e ela se completa definitivamente ao término de uma certo plano de desenvolvimento até que se atinja o fim desejado. Se eu tenho o projeto de abater uma árvore atingida por um raio, eu devo decidir quem será o agente da ação (eu mesmo ou um outro eu mesmo que será meu aliado), devo decidir também sobre a escolha de um instrumento (o auxiliar da busca) e seguir o roteiro das operações exigidas pela experiência ou pelo conhecimento deste gênero de atividade para conseguir alcançar meus fins. Isto faz com que toda ação se realize em um espaço fechado e irreversível.
Pode haver igualmente vários atores que possuem fins ao mesmo tempo similares e opostos. É o que se passa em situações de transação comercial : cada um dos agentes persegue algo que lhe é próprio, cujo objeto lhe é exterior, e cujo movimento é uma tensão, não reversível, em direção a esse objeto (compra-se ou não se compra, vende-se ou não se vende). Neste quadro acional nada se negocia. É a palavra que instaura eventualmente uma negociação ; ela o faz quando os fins de cada um dos projetos são contraditórios.

A "intenção" (visée) constitui uma tensão rumo à resolução do problema que a existência do outro implica, parceiro da troca social, quando supomos que sua intenção se opõe (ou resiste) ao projeto de busca do sujeito agente. A partir daí, duas opções se oferecem ao sujeito falante : eliminar fisicamente o outro (ação), ou engajar-se em um processo de comunicação para buscar a adesão do outro a sua intenção de ação propria, ou, pelo menos, eliminar sua resistência. Assim, o projeto do agente da busca não depende mais, para sua realização, da simples aplicação de um plano de ação e das regras que lhe são inerentes, mas da possível reação do outro que foi avaliada por antecipação. Portanto, esse projeto não pode ser senão uma tentativa de influência sobre o outro, uma intenção de modificação de seu estado mental. A intenção, contrariamente ao fim, não é outra coisa que a intenção de influenciar o outro, de produzir nele um efeito ("efeito visado") que o leve a modificar sua própria intenção. É apenas na observação do comportamento do outro ("efeito produzido") que poderá ser medido o impacto do efeito visado.
Nota-se então que a linguagem (mas a linguagem considerada em uma perspectiva comunicacional) se instaura em um espaço aberto e reversível. Com efeito, para que se realize um ato de comunicação é preciso dois atores em relação de interação linguageira que se reconheçam mútua e reciprocamente como os parceiros de uma co-construção do sentido numa finalidade de intercompreensão e que, ao mesmo tempo, se diferenciem suficientemente para que possam assumir suas identidades próprias. A realização de um tal ato não pode seguir uma lógica de encadeamento unidirecional, já que cada sujeito dispõe da mesma iniciativa de comunicação que o outro, o que os obriga a uma ação constante de regulação.
A intenção do ato de comunicação não é a mesma coisa que o fim da ação. Ela se desenvolve de forma ao mesmo tempo simétrica e assimétrica, ela não depende da decisão de uma única instância, mas das duas em reciprocidade aberta, e portanto se encontra em um espaço de "indecidibilidade". A intenção não tem sua origem na aplicação de regras procedimentais predefinidas e exteriores ao sujeito, como é un caso do fim. Para se alcançar um certo fim de ação, é preciso seguir um percurso obrigatório, mesmo se ele comporta várias vias e uma organização em "árvore", pois a boa aplicação das regras é a garantia de seu sucesso. Por outro lado, construir um projeto de influência através de uma finalidade comunicativa (visée) exige invenção e cálculo permanente sobre o outro, o receptor, sem que se tenha nunca a certeza do sucesso.
Vê-se, pois, que a competência acional e a competência linguageira não são de uma mesma ordem. A primeira provém de um experiência , de um conhecimento e de uma aptidão em aplicar regras de encadeamento dos atos, sem a qual o fim nunca é atingido. Como em um computador, se essas regras não são aplicadas corretamente, a máquina responsável por engendrar a operação se bloqueia. A segunda provém de um saber-fazer conjuntural que depende das hipóteses que podem ser feitas sobre quem é o outro, qual é o seu saber e seu saber-fazer, e de uma aptidão em produzir efeitos (visados) que produzam resultados. Ora, de uma forma ou de outra, esses efeitos sempre produzem resultados, mesmo se não são os previstos, o que permite dizer que em matéria de comunicação humana a máquina não se bloqueia nunca.

Fim (but) e intenção (visée) se opõem em seus objetivos e em seus modos de realização. Mas como é difícil conceber as relações humanas e sociais de modo diferente de uma imbricação de projetos de ação e de projetos de comunicação, pode-se dizer que essas relações resultam de uma articulação permanente entre o espaço fechado dos objetivos de ação (buts) e o espaço aberto das finalidades (visées) comunicativas, estas últimas vindo resolver sempre os bloqueios da máquina produzidos pelos primeiros, e a experiência dos objetivos de ação vindo enriquecer os cálculos do sujeito comunicante para a escolha de suas finalidades (visées). “Decidir deixar um grupo” é um projeto de ação ; “Ameaçar os membros do grupo de deixá-los si …” é um ato de linguagem orientado em função de uma finalidade que busca modificar o comportamento dos outros ; “Iniciar uma negociação a pedido dos membros do grupo” é se engajar em trocas linguageiras nas quais uma sucessão de intençãoes (visée) tenta influenciar o outro ; “Deixar, apesar de tudo o grupo”, é agir realizando um fim, um objetivo de ação (but). Nota-se como a socialização da linguagem pode ser construída, e como todo grupo social é o resultado da acumulação vivida dos objetivos de ação e das finalidades comunicacionais construídas e sustentadas pelo discurso.

Esse agir sobre o outro, agindo sobre suas representações do mundo, a partir dos dados situacionais que foram estabelecidos através de uma certa regulação das trocas sociais, faz com que todo ato de comunicação seja ao mesmo tempo finalizado em termos de influência, regulado em termos de intercompreensão, intersubjetivado em termos de partilha (ou de imposição) dos saberes, das opiniões e das crenças sobre o mundo. Esta problemática é a que Habermas propõe sob a denominação de “agir comunicacional” (1987). Esse agir comunicacional, feito de finalidades acionais e linguageiras, é o que constitui, no meo ponto de vista o objeto da análise do discurso.

Patrick Charaudeau
Centre d´Analyse du Discours
Université de Paris 13
11 de maio de 2002.
Traduzido por Wander Emediato
Pour citer cet article
Patrick Charaudeau, "O discurso entre a ação e a comunicação", Références à compléter, 2002, consulté le 23 octobre 2014 sur le site de Patrick Charaudeau - Livres, articles, publications.
URL: http://www.patrick-charaudeau.com/O-discurso-entre-a-acao-e-a.html
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