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Um modelo sócio-comunicacional do discurso : entre situação de comunicação e estratégias de individualização

in Grenissa Stafuzza e Luciane de Paula (org.) Da análise do discurso no Brasil à análise do discurso do Brasil, Edufu, Uberlândia, 2010., 2010

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Tradução : Grenissa Stafuzza
Revisor Técnico : Adail Sobral

Apresentação dos problemas

Do meu ponto de vista, uma disciplina que se ocupa do discurso tem de enfrentar três tipos de problemas : (1) o da delimitação de seu campo de estudo em função dos objetivos de análise, que declaramos ser os seus, os quais são percebíveis através dos pressupostos teóricos e dos instrumentos metodológicos estabelecidos ; (2) a relação entre o que podemos denominar de interior e exterior da linguagem, entre o ato de linguagem proferido e um “fora da linguagem”, que talvez pertença à linguagem, mas não é verbalizado na própria instância de sua enunciação, não é recuperável nas formas do que foi enunciado, mas é necessário para interpretá-lo ; (3) finalmente, o problema da interpretação, ou seja, do sentido que damos aos resultados de nossas análises, e que reside na questão de saber mediante que processo interpretamos os textos e seus discursos quando estamos em posição de sujeito analisante : com que prática interpretativa e com que teorização possível este pode contar ?

Na impossibilidade de tratar de todas estas questões, que merecem cada uma delas um artigo inteiro, concentro-me no segundo problema - o da relação entre o ato de linguagem e sua exterioridade - fazendo somente alusões aos outros dois.

1. A determinação do campo de estudo

Percorrendo os estudos que se apresentam como de análise de discurso, constatamos uma grande diversidade em suas orientações : uns são centrados nos marcadores discursivos (gramaticais e lexicais), outros nos modos de organização do discurso (narrativo, argumentativo) ; alguns se inscrevem em uma gramática da enunciação, outros se filiam à retórica argumentativa, outros ainda estudam os rituais de linguagem como mecanismos interaccionais e, outros, enfim, procuram descrever os sistemas de ideias (ideologias) de que os discursos são portadores.

Podemos tentar reagrupar essas diferentes orientações em torno de grandes problemáticas de estudo. Uma problemática não é uma teoria, mas um lugar de questionamento geral que se assemelha a um conjunto de proposições dadas como provisoriamente (ou hipoteticamente) verdadeiras, segundo certos parâmetros. Ela delimita de alguma maneira um posicionamento epistemológico no interior da disciplina.

Aqui, cada problemática será definida de acordo com três parâmetros : a natureza do objeto de estudo que cada um constrói, o modo que é concebido o sujeito do discurso quanto à sua atividade como produtor do ato de linguagem, e, consequentemente, o tipo de corpus que é preciso construir para proceder à análise e que, ao mesmo tempo, presume-se corresponder à memória do sujeito do discurso. Chegamos a três problemáticas de base, cada uma das quais correspondente a um tipo de abordagem de análise do discurso.

Um problema cognitivo e categorizante

O objeto de estudo é considerado um conjunto de mecanismos discursivos cuja existência e modo de organização no interior de uma produção discursiva qualquer (texto ou enunciados aleatórios) se busca delimitar. Essa é uma problemática desenvolvida na filiação da pragmática linguística de Austin, de Searle, de Ducrot : atos de linguagem, pressupostos, etc. ; nela se enquadram igualmente estudos, sobretudo, sobre estratégias de coerência e de coesão da organização dos textos, os trabalhos de determinados psico-cognitivistas da linguagem que procuram determinar percursos “down” ou “up” de realização discursiva de esquemas, scripts ou cenários para descrever o modo de produção ou de compreensão de textos, bem como estudos do uso de certas palavras do discurso (conectores, modalizadores etc.). Em todos esses casos, surgem categorias instrumentais de análise que servem para delimitar ou produzir configurações discursivas.

O sujeito relativo à determinação de um tal objeto será denominado cognitivo na medida em que só é considerada sua capacidade de produzir ou localizar operações de articulações discursivas : relações anafóricas ou catafóricas, conexões via coordenação ou subordinação, condições de repetição ligadas à coerência, condições de progressão e de não-contradição, regras de argumentação, etc.

O corpus construído nessa problemática não tem necessariamente de ser finalizado em função de uma situação de comunicação particular. Desse ponto de vista, ele pode ser considerado aleatório, e condicionado somente pelos contextos linguísticos em que aparecem esses mecanismos.

Uma problemática comunicacional e descritiva

O objeto de estudo aqui é empírico, ou mais exatamente determinado a partir da observação (mais ou menos ingênua) das manifestações do mundo fenomênico. Assim, podemos determinar os atos de comunicação em função de certo número de variáveis : a identidade dos parceiros de troca comunicativa, a finalidade do ato (objetivo) da situação em que se encontra os parceiros e as circunstâncias materiais da comunicação. Portanto, o objeto de estudo advindo dessa empiria pode ser estruturado em “tipos ideais” (no sentido durkheimiano) de comunicação que permitem estabelecer diversas tipologias de discursos, de textos, de gêneros ou de situações comunicativas, mas que supõe, todas elas, uma teorização desses tipos ideais de comunicação.

O sujeito, aqui, está ligado a essas questões empíricas de trocas comunicativas, mas também é construído e teorizado em função da forma que se constroem e teorizam essas trocas. O sujeito é então um sujeito de comunicação que se define por sua identidade psicológica e social, por um comportamento que é finalizado, tanto pelas coerções a que ele se submete se quiser inserir-se numa troca (desse ponto de vista, ele é um “isso” [ça]), como por suas próprias intenções com relação ao outro (desse ponto de vista, ele é o “eu”). Diversas teorizações sobre esse sujeito são possíveis, mas, sejam quais forem, considera-se que esse sujeito se encontra em uma relação de intersubjetividade com o outro da linguagem (princípio da alteridade).

Também o corpus, se ressente dessa visão empírica do objeto de estudo. Ele é geralmente constituído de textos que são agrupados em função de seu pertencimento a esse ou aquele tipo de situação comunicativa : textos publicitários, jornalísticos, administrativos, textos de manuais escolares, de programas políticos, assim como diversos textos conversacionais (conversas telefônicas, pedidos de instruções, entrevistas, colóquios, debates etc.)

Uma problemática dita representacional e interpretativa

O objeto de estudo dessa problemática é definido através de hipóteses de representações sócio-discursivas que se supõem dominantes num dado momento da história de uma sociedade (são, portanto, sócio-históricas) e caracterizam esse ou aquele grupo social. Nesse aspecto, são interpretativas, posto que, é preciso ter, desde o início, uma hipótese sobre o que são os “posicionamentos sociais” em relação às “práticas discursivas” e os “tipos de sujeitos” que a elas se ligam. A dificuldade dessa problemática reside justamente no fato de que é preciso formular essas hipóteses e, para isso, deve-se ter por base manifestações discursivas extremamente diversas, nem sempre explícitas, quem sabe difusas e mesmo imprecisas. Isso evoca o problema da constituição do corpus.

O sujeito, nessa perspectiva, também se torna um problema e tem sido frequentemente discutido. Visto ser ele a origem das práticas discursivas que constroem as representações, pode-se considerá-lo um sujeito ativo. Mas, como essas práticas são partilhadas pelos outros do grupo, e retornam ao sujeito na forma de representações de sistemas de valores que o sobredeterminam, pode-se dizer que esse sujeito é passivo e se dilui na consciência do grupo social. Surgem daí duas posições defendidas por diversos analistas :

  • uma, radical, que só confere a esse sujeito uma existência de “ilusão”, pois ele seria completamente sobredeterminado por aquilo que Pêcheux chama de “pré-construído” das “formas discursivas” : o sujeito não é um “eu”, mas um “isso” (ideológico ou inconsciente) que fala através dele ;
  • outra, menos globalizante, que não nega que o sujeito possa ser sobredeterminado, mas em vez de considerá-lo uma ilusão, confere-lhe algum caráter positivo : todo sujeito é detentor, de um lado, de um discurso que o sobredetermina (frequentemente apesar dele mesmo), mas ao mesmo tempo procura se posicionar em relação aos outros. Pode-se então dizer que, de uma certa maneira, esse sujeito é “responsável” (evidentemente, precisa-se pôr aspas) por suas representações. É uma posição que qualificaríamos como sociológica, defendida na França por certos sociólogos que trabalham com a análise das representações do espaço público nas mídias (L. Quéré), e que têm afinidade com o ponto de vista de uma sociologia construtivista tal como a concebia Bourdieu.

O corpus, por conseguinte, varia segundo uma ou a outra posição. Há, entretanto, um problema comum a essas duas posições : as representações sociais - porque é delas que se trata - constituídas por esses discursos atravessam os suportes, as situações e os gêneros, e, assim, são recuperáveis de maneira transversal, o torna particularmente difícil a constituição do corpus. Constatamos, contudo, que o corpus é, ora constituído por um conjunto de textos - arquivos, selecionados por seu valor emblemático de discurso dominante, ora constituído por um conjunto de signos - sintomas (verbais ou icônicos) que representam de modo emblemático sistemas de valores (o “racismo”, a “imigração”, a “mulher” na publicidade, o emprego de certas fórmulas nas mídias etc.)

Estas três problemáticas delimitam o campo do discurso. Um campo que pode ser trabalhado de maneiras distintas, mas com uma finalidade comum : ver como se estruturam as trocas sociais através da linguagem, e, assim, como se organizam as relações sociais e se instauram os vínculos sociais. É na medida em que se faz isso com e através da linguagem enquanto centro geométrico de organização social, que a análise do discurso se institui como disciplina distinta das outras disciplinas (sociologia, psicologia social, antropologia, etc.), ao mesmo tempo em que se articula com elas.

2. A articulação do ato de linguagem com seu ambiente

É forçoso constatar que o sentido de um ato de linguagem (ou de comunicação) não reside somente em sua manifestação verbal nem somente em seu sentido explícito contido no enunciado produzido (sentido verificável pelo recurso ao dicionário, ou à gramática de uma língua). Se nos restringíssemos a esse sentido, ficaríamos sempre aquém do sentido do ato de linguagem, caso o queiramos considerá-lo um ato de troca psicológico e social. Tal troca se faria sempre em função de certo “jogo de expectativas” (enjeu) [1] vinculado ao significar. Interpretamos sempre os atos de linguagem a partir de enunciados produzidos e em relação com um “jogo de expectativas” ou ao menos do “jogo de expectativas” que supomos ser o da troca, e que corresponde à questão : “o que ele quer me dizer ?” Assim, percebemos o não-dito, ou seja, um sentido oculto, implícito, que não aparece na mera combinação das palavras do enunciado, mas que se constrói por inferência. Ora, o que é uma inferência ? Um processo mental pelo qual um sujeito coloca em relação o que é dito explicitamente com qualquer outra coisa que encontra em seu ambiente, como um alhures, um exterior da linguagem que é, contudo, pertinente para construir esse implícito. Daí vem a hipótese de que o sujeito falante, por sua vez, fabrica seu enunciado em função de certo “jogo de expectativas” ao distribuir nos atos de linguagem os sentidos explícitos e implícitos segundo as possibilidades inferenciais que atribui ao seu interlocutor.

Em outros termos, as palavras e os enunciados produzidos não significam por si mesmos, e só são interpretáveis a partir de uma relação com um “outro lugar”, mais ou menos sobredeterminante, um lugar de condicionamento que deve ser partilhado pelos parceiros de troca : todo ato de linguagem é produzido e interpretado em função das condições que presidem sua produção e sua interpretação. Para que o enunciado “Ele tem trinta anos” possa significar que a pessoa da qual falamos é “muito velha”, é preciso que locutor e interlocutor saibam que se trata de um jogador de futebol, ou seja, é preciso que eles tenham em comum um certo saber que constitui um dos “jogos de expectativas” do ato de comunicação. Resta saber como tratar essa questão do ambiente de linguagem em termos de pertencimento aos atos de linguagem produzidos.

Precisamos, para isso, de uma teoria do “sujeito do discurso” e uma teoria da “situação de comunicação” : do sujeito do discurso porque ele se encontra no centro do processo de produção e interpretação do ato de linguagem e é, em parte, condicionado pela situação de comunicação ; da situação de comunicação porque é ela que estrutura o ambiente de linguagem pertinente. Essa dupla teoria deve ser propriamente uma teoria de linguagem, ou seja, nem sociológica nem psicosociológica, e que não impeça de integrar elementos de ordem sociológica e/ou psicológica.

Propomos então um modelo que distingue três espaços de pertencimento de construção do sentido, o que envolve correlativamente uma definição do sujeito segundo uma dupla identidade, social e discursiva ; que se determinem as condições de produção e interpretação em termos de efeitos ; e que se tome posição sobre o modo de existência do sujeito em meio a esses espaços de restrição (lieux de contraintes)  [2]

O espaço da produção

Trata-se do espaço de uma prática social na qual se encontra o sujeito que produz o ato de comunicação. Mas trata-se de uma prática social comunicativa que é portanto estruturada de acordo com as condições relativas ao que chamaremos aqui de situação de comunicação. Essa situação de comunicação faz é objeto de uma estruturação particular, que exporemos mais tarde, mas podemos já adiantar que ela é o espaço em que se define o “jogo de expectativas” da troca comunicativa, ou seja, que permite de responder à questão : “Qual é a finalidade imposta por esta situação ?”.

Assim, o locutor (no sentido genérico) que se encontra nessa situação é sobredeterminado pelo estatuto e papéis que lhes são atribuídos. Diremos que em cada situação de comunicação o sujeito se define através da identidade social que esta lhe impõe.

Mas essa identidade social deve ser considerada em relação de pertinência com o ato de comunicação, pois é ela que funda a legitimidade do sujeito falante, ou seja, que permite responder à seguinte questão : “O que me autoriza a tomar a palavra ?”. Assim, o estatuto de médico de determinada pessoa não é considerado no caso de ela bater à porta do vizinho para lhe pedir uma xícara de açúcar. Aqui, é a identidade social de vizinho que é pertinente em relação à situação de pedir um favor, sendo esta identidade que autoriza a pessoa a pedir o favor. Em contrapartida, é o estatuto de médico que será pertinente em uma situação de consulta médica, que autoriza a fazer ao paciente a pergunta : “Você tem dormido bem ?”. Em contrapartida, vemos que esse enunciado não pode ser pronunciado por um transeunte que pára na rua um outro transeunte, pois a situação de pedido de informação de um desconhecido a outro não o autoriza a fazê-lo.

Se nos interessa a análise de diferentes tipos de discursos, será necessário perguntar sobre a identidade social do sujeito que está na origem de cada um deles. Por exemplo, no caso do discurso da imprensa, quais são os traços de identidade social pertinentes em relação ao texto produzido : é aquele de um jornalista do jornal, o de um correspondente ou de um enviado especial, ou é o de um cronista ocasional, de uma personalidade exterior ao jornal etc. ? No caso do discurso político, é aquele de um candidato à eleição, de um eleito, de um ministro, do chefe de Estado, de um membro da maioria ou de um membro da oposição ?

Se se funda o ato de linguagem num princípio de influência e de regulação das trocas sociais, a partir do problema que o princípio de alteridade coloca a todo sujeito falante (assemelhar-se ao outro/ser diferente do outro), podemos definir seu “jogo de expectativas” como um “jogo de expectativas” de efeitos a ser produzido no outro, e, para este outro, de percepção desses efeitos : efeitos de fazer fazer, de fazer saber, de fazer crer etc. Entretanto, como o locutor não pode ter certeza de que esses efeitos são igualmente percebidos por seu interlocutor, falamos aqui de efeitos visados. Evidentemente, é desejável que esses efeitos sejam percebidos pelo interlocutor, pois eles são uma condição de sucesso da troca de linguagem, mas veremos que em toda troca o interlocutor tem sua palavra a dizer. Em todo caso, definimos o espaço das condições de produção como um espaço onde se constituem os dados da situação de comunicação que sobredeterminam em parte as identidades dos sujeitos presentes e a finalidade do ato de troca em termos de efeitos visados.

O espaço da interpretação

Esse é igualmente o espaço de uma prática social na qual se encontra o sujeito que recebe o ato de comunicação e deve interpretá-lo. Essa atividade é submetida, ao menos em parte, às mesmas condições que a produção, na medida em que o sujeito que aí se encontra é o parceiro de um ato de comunicação cujo “jogo de expectativas” deve reconhecer : “Qual é a finalidade imposta por esta situação ?”, “que identidade social ela atribui ao locutor ?”, “que identidade social ela atribui a mim, interlocutor ?” ; essa a condição para ele tentar reconstruir o sentido que lhe propõe o ato de linguagem recebido.

Contudo, esse sujeito interlocutor é um ator social que tem sua própria autonomia em sua ação de interpretação ; ele se dedica a essa atividade em função de sua própria identidade social, da identidade social do locutor que ele percebe, das intenções que lhe atribui, de seu próprio conhecimento de mundo e de suas próprias crenças. Dessa perspectiva, podemos dizer que o locutor não tem total domínio sobre seu interlocutor ; ele pode imaginar quem ele é, mas não pode ter certeza de que ele interpretará seu ato de linguagem do modo como ele pretende. É que o interlocutor, por sua vez, constrói ao seu modo o sentido ; ele não é um simples receptor cuja atividade consistiria, como dizia o esquema de comunicação tradicional, em decodificar a mensagem emitida pelo locutor : ele é um interpretante construtor de sentido.

É porque o espaço da interpretação é aquele onde se realizam os efeitos de sentidos que são próprios do interlocutor que podemos falar aqui de efeitos produzidos. E é preciso aceitar que os efeitos visados e os efeitos produzidos não coincidem necessariamente. Claro que a não-coincidência, e mesmo a distorção, entre esses efeitos varia de acordo com os traços identitários que a situação atribui a cada um dos parceiros da troca comunicativa. Podemos pensar que em uma conversação face-a-face, os interactantes têm mais possibilidades de ajustar o que eles dizem às reações do outro, de retificá-las e, assim, aproximar efeitos visados e efeitos produzidos (ainda que isso dependa do grau de conhecimento e familiaridade que caracteriza sua relação, assim como de seu estado psicológico). Mas em todos os casos de comunicação em que o sujeito interpretante é plural, representado por um grupo, um público, um auditório, pode-se julgar com segurança que esses dois tipos de efeitos só vão coincidir vagamente. Assim acontece com o discurso político, com o discurso das mídias de informação, com o discurso publicitário e, em menor medida, com o discurso didático. Quanto mais heterogêneo e indefinido o público, menor será a coincidência.

Definiremos o espaço das condições de interpretação como espaço em que se constituem os dados específicos do sujeito interpretante, revelados pelos efeitos produzidos, e que se integram às condições da situação de comunicação.

O espaço de construção do texto

Precisemos desde já que chamamos de texto toda produção de linguagem configurada de modo verbal, icônico ou por qualquer outro sistema semiológico significante : ele é o resultado do ato de linguagem em sua manifestação semiológica, seja aberto ou fechado, oral ou escrito, longo ou curto, contínuo como em uma produção escrita ou fragmentada como em uma sequência de turnos, como numa conversação.

Encontramo-nos, então, aqui, no espaço onde se constrói um texto a partir de dados impostos pelo espaço de produção. Sua organização depende do modo como são escolhidas e mobilizadas certas categorias de discurso que farão do texto uma combinação de organização argumentativa, narrativa ou descritiva, a serviço de certa proposta sobre o mundo, ou seja, de certa construção do sentido.

Mas, aqui, os sujeitos implicados pelo texto não são aqueles do espaço de produção nem do espaço de interpretação. São, como diz R. Barthes a propósito da narrativa, “seres de fala”, seres que só existem com a e através do fato de linguagem. Assim, teremos duas questões a tratar : de um lado a questão do sujeito enunciador, aquele que emerge da enunciação linguística, e de outro a questão do sujeito destinatário, aquele que está implicado pelo próprio texto. Eles são definidos em termos de identidade discursiva.

Enunciador e destinatário são construídos pelo locutor. É ele que, através de seu ato de linguagem, constrói uma imagem discursiva de si mesmo (uma espécie de ethos), e uma imagem ideal daquele a quem pensa que se dirige. Se o locutor, como vimos, não tem o controle de seu interlocutor, em contrapartida ele tem o controle do destinatário, que depende inteiramente dele. Evidentemente, ele pode se enganar em seu cálculo, pois produz seu enunciado nos termos do que sabe do interlocutor e fabrica deste uma imagem sob medida para si, mas pode ocorrer de esse interlocutor não corresponder a essa imagem ideal. Assim nascem os mal-entendidos, as incompreensões, as falsas interpretações ou simplesmente as interpretações outras.

O sentido de um texto não depende somente da intenção daquele que o produz ; nem tudo é mobilizado de antemão em razão do estatuto do locutor, ao contrário do que parece dizer P. Bourdieu. As identidades discursivas dos protagonistas do ato de linguagem constroem igualmente o sentido que vem confirmar ou modificar, por sua vez, a intenção do locutor ao olhar do sujeito interpretante. Assim como, em uma narrativa, não confundimos o autor com o narrador, de um lado, e o leitor construído pela narrativa (o “lector in fabula” que fala U. Eco) com o leitor real, do outro (oferecendo a estes últimos certa imagem daqueles), assim também, e de modo geral, não se confunde locutor com enunciador, de um lado, e destinatário e interpretante, do outro. Vemos assim que, do ponto de vista do sentido, um texto é portador tanto de efeitos visados pelo locutor como de efeitos produzidos pelo interpretante ; ele é o conjunto dessa soma de efeitos de sentido que são efeitos possíveis. Todo texto é o resultado de uma co-construção do sentido efetuada pelos dois parceiros do ato de comunicação.

Isso explica porque podemos considerar que um texto pode ser ao mesmo tempo fechado e aberto. Ele é fechado em torno da interpretação que dele faz um tipo de sujeito interpretante particular ; seu sentido é o resultado de um encontro interindividual entre os dois parceiros de troca. Ele é aberto se considerarmos as diversas interpretações que poderiam ser feitas por diversos tipos de sujeito interpretante ; o sujeito interpretante pode variar no tempo (não lemos Molière como o leram seus contemporâneos), no espaço (não lemos um romance de Garcia Marquez como o faria um leitor colombiano, e, na França, não lemos as declarações sobre a guerra de Georges W. Bush como pôde fazer um estadunidense), segundo a idade (uma criança não lê a publicidade televisiva como um adulto), segundo o sexo (as mulheres julgam uma publicidade sexista enquanto os homens a julgam sexy), segundo o meio social (há quem adore a programação popular de televisão, tipo programas de auditório, jogos, ou realities shows, e há também quem a deteste), segundo, igualmente, o tipo de relação entre o sujeito interpretante e o sujeito locutor (nem todos experimentam a mesma emoção ao ver imagens de uma catástrofe aérea, ou ao menos aqueles que tinham um parente próximo no avião).

O texto pode então ser considerado de dois modos :

  • do ponto de vista de sua configuração de linguagem, como uma materialidade construída que se torna objeto de troca de linguagem, mas ao mesmo tempo correspondente a uma visada intencional, seguindo nisso o “postulado de intencionalidade” definido por Searle. Esse postulado de intencionalidade não designa o que seria a intenção comunicacional do sujeito falante, mas o fato de que todo ato de linguagem é fundado na intenção, fundado naquilo que permite dizer que ele tem um sentido, sem que seja considerada a particularidade deste sentido ;
  • do ponto de vista de seu conteúdo, como um texto “prenhe de sentidos”, de sentidos que dependem tanto da situação como do sujeito locutor e do sujeito interpretante. Podemos assim dizer que todo texto possui sentidos múltiplos, plurais, trazendo em si um conjunto de “sentidos possíveis” como resultado de diversos encontros que deram lugar, cada um, a uma co-construção específica. Nesse sentido, o texto é aberto, mas sua abertura é uma sucessão de clausuras. Basta lembrar das múltiplas interpretações que tem suscitado a expressão "fratura social” empregada por J. Chirac na campanha presidencial de 1995 : para uns, foi uma usurpação, para outros, um bom ataque, para outros ainda, uma esperança etc.

Essa hipótese dos lugares de pertencimento (ver esquema 1) coloca em evidência várias coisas :

  • O sentido de um texto é tanto de ordem processual como de ordem estrutural. Ele é processual por causa de uma co-construção entre a instância de produção e a instância de interpretação, uma construção que varia de acordo com a relação entre as duas instâncias ; ele é estrutural pela clausura que supõe o encontro entre uma parte do projeto de sentido do sujeito locutor e a construção de sentido de um sujeito receptor-interpretante particular. E, no fundo, temos todos necessidade de acreditar que a interpretação que fazemos de um texto é válida, como temos todos necessidade de acreditar que um texto não permanece imobilizado numa só interpretação.
  • O sujeito do discurso não é Uno. De acordo com a hipótese de que ele se constrói segundo um princípio de alteridade, ele se divide de mais de uma maneira. Desdobra-se segundo os papéis que desempenha em seu próprio ato de linguagem : ora sujeito comunicante, ora sujeito interpretante. Mas todo locutor sabe que ao mesmo tempo em que é produtor do ato de linguagem, é também interlocutor, pois não pode se impedir de imaginar como vai ser na atividade interpretante de seu interlocutor ; por sua vez, o interlocutor sabe que, ao mesmo tempo em que interpreta, é também sujeito produtor, pois não pode se impedir de imaginar a atividade produtora do locutor. Além disso, o sujeito de linguagem se desdobra de acordo com a sua natureza de ser psico-social (identidade social) e ser de fala (identidade discursiva). Assim, o locutor, através do seu lugar discursivo de enunciador, realiza uma seleção das múltiplas filiações que o constituem, e o interlocutor, através de sua atividade interpretante, realiza por sua vez sua própria seleção. Para fazer eco à proposta de Bernard Stiegler, o Eu e o Tu se constroem de modo processual como múltiplos, mas sonham ao mesmo tempo em ser Uno, engajando-se para isso num processo de individuação. Finalmente, como diz Daniel Bougnoux, “o sujeito da enunciação é mais complexo que o sujeito do cogito”.
  • A determinação desses três lugares de pertencimento coloca a questão de saber o que é preciso estudar nesses lugares de produção e de recepção. No lugar da produção, importa, para que as análises possam se articular sobre análises de texto, estudar as representações que os produtores de texto, numa situação de comunicação determinada, têm de seu próprio fazer, das condições que os restringem e do modo como percebem seu interlocutor ou público. É uma forma de tentar entender como se constroem os efeitos visados no lugar de produção. No lugar da recepção, a coisa é mais complexa, pois há várias concepções do que deve ser seu estudo : uns experimentais, outros mais empíricos, outros ainda discursivos. Todos são suscetíveis de se articular sobre análises de texto, mas de modos diferentes : como se compõem os públicos ; como, segundo a composição dos públicos, estes percebem, compreendem, memorizam ; como se formam as opiniões ou os efeitos à partir de situações de comunicação determinadas e segundo as estratégias discursivas mobilizadas.
  • Enfim, esses três lugares, assim definidos em relação de pertencimento aos atos de linguagem, instauram ao mesmo tempo uma possível articulação entre diferentes disciplinas (sociologia, etnografia, antropologia, psicologia social etc.) que se interessam pelos lugares de produção e de recepção. Mas uma interdisciplinaridade não é o simples acúmulo de várias disciplinas, nem de seus conceitos ou de seus resultados. Não é juntando os resultados diversos a propósito de um mesmo objeto (aliás, trata-se do mesmo objeto ?), nem citando aqui ou ali esse ou aquele conceito, dessa ou daquela teoria, que se realiza essa ambição. Para haver interdisciplinaridade, é preciso haverum centro geométrico, um lugar onde são interrogados outros conceitos e outros resultados. Assim, para nós, é do lugar da análise do discurso que serão reconsiderados conceitos e resultados de outras disciplinas, mas podemos imaginar a mesma postura da parte da sociologia, da psicologia social e de outras disciplinas, cada uma se tornando o lugar geométrico dessa interrogação. É o que chamamos de interdisciplinaridade focalizada. Com essa condição, julgamos que as disciplinas das ciências humanas e sociais poderão dialogar. É preciso ainda vontade para realizar esse diálogo.

3. Da situação de comunicação

Há então, em todo fato de comunicação humano, condições de produção e condições de recepção-interpretação que sobredeterminam em parte o ato de produção do sentido em relação a cada um dos sujeitos envolvidos no processo. E para que seja possível uma certa intercompreensão entre os dois sujeitos, podemos estabelecer a hipótese de que eles devem partilhar uma parcela dessas condições : o sujeito falante deve ter consciência (consciência que pode ser não consciente [sic]), e o sujeito interpretante deve poder reconhecê-las.. Chamamos essa parte comum de “situação de comunicação”, conjunto de condições situacionais não enunciadas que determinam em parte o sentido do ato de linguagem e que fariam deste um objeto de troca contratual entre as duas partes envolvidas. A situação de comunicação constitui um lugar de restrições à produção e à interpretação de enunciados, proporcionando aos sujeitos produtor e interpretante instruções de construção/interpretação do sentido.

Poderíamos julgar essa questão trivial, pois não se pára de fazer referência, na maior parte dos escritos, à necessidade de recorrer ao contexto para interpretar o sentido de um enunciado. Mas isso não basta. Não podemos nos contentar com uma referência pontual por ocasião desta ou daquela interpretação. É preciso mostrar como esta situação é estruturada, como ela impõe suas restrições e como ela se apresenta enquanto lugar de construção do sentido.

Os "domínios da prática” (DP)

Os domínios da prática são lugares de produção das interações sociais organizadas em setores de atividade social que se definem por um conjunto de práticas finalizadas. Eles resultam de um jogo de regulação das relações de força que aí se apresentam, e instauram um recorte do espaço social como lugar simbólico de uma atividade ordenada de atores sociais em torno de uma finalidade que implica regras de troca. Em termos bourdieusianos, poderíamos falar de “campos” da prática social.

Cada DP resulta um recorte do espaço social : o político (e não a política), o jurídico (e não a justiça), o religioso (e não a religião), o midiático (e não a mídia em particular), o econômico (e não este ou aquele ato comercial), o educativo (e não esta ou aquela forma de ensino) etc.

O domínio de prática não pertence a nenhuma disciplina específica, e por isso pertence possivelmente a todas. É o lugar empírico de organização do mundo fenomênico que pode cada disciplina pode ser construída como objeto de estudo : a sociologia, a psicologia social, a antropologia, a história, a análise do discurso etc. Mas, é ao mesmo tempo, uma vez reconhecido como um campo de práticas, o lugar onde diferentes disciplinas podem se encontrar fazendo circular certos conceitos seus. Por exemplo, neste domínio de prática se encontram atores sociais que se inscrevem em situações relacionais, mas sem que nem uns nem outros sejam ainda determinados. Vai caber a cada disciplina defini-los como “sujeitos”, “situações de ações” e “regras de comportamento”.

A "situação global de comunicação” (SGC)

A situação global de comunicação é um primeiro lugar de construção do domínio das práticas sociais em domínio de troca comunicacional. Encontramo-nos aqui nos campos dos fatos de comunicação. Esta situação se define conceitualmente pelo número de instâncias de comunicação presentes, o que as legitima quanto ao seu papel e estatuto, os tipos de relação que se instauram entre elas, a finalidade discursiva que ela visa alcançar e o domínio temático que a ela se filia, o todo organizado segundo um dispositivo que será ele mesmo considerado conceitual porque ele não prejulga a especificidade desses elementos.

Por exemplo, a situação global de comunicação do político se caracteriza por quatro instâncias : instância “política”, instância “adversária”, instância “cidadão” e instância “midiática” ; a finalidade discursiva é de “incitação a partilhar um projeto de ideias e de ação social” ; o domínio macro-temático trata de uma “idealidade social”. A SGC do publicitário, por sua vez, propõe uma instância “publicitária” e uma instância “consumidora” (ela é sua própria instância de midiatização), uma finalidade discursiva de “incitação a se apropriar de um produto de consumo” e um domínio macro-temático de “idealidade individual”. A situação global de comunicação das mídias de informação propõe uma instância de “informação”, uma instância “pública” (ela é igualmente sua própria instância de midiatização), uma finalidade discursiva de “fazer saber e comentar os acontecimentos do mundo” e um domínio temático de “acontecimentos que se produzem no espaço público imediato”, o que explica a conivência que pode se produzir entre o discurso político e o discurso de informação midiático.

A situação global de comunicação é, então, o lugar onde os atores sociais do domínio de prática são construídos em instâncias de comunicação, onde o jogo de regulação é construído em finalidades discursivas e o universo do saber envolvido é construído em domínio macro-temático. Se no DP temos um recorte impreciso do discurso político, jurídico, educativo, midiático etc., na SGC temos dispositivos conceituais da comunicação política, jurídica, do ensino, da informação etc. Mas aqui, não especificamos ainda a situação de comunicação concreta.

A "situação específica de comunicação” (SEC)

A situação específica de comunicação é um segundo lugar de estruturação do domínio de prática onde são determinadas as condições físicas da situação de linguagem e, portanto, especificados os termos da situação global de comunicação. Se naquela temos instâncias de comunicação definidas globalmente, aqui temos os sujeitos participantes da troca, com uma identidade social e papéis comunicacionais bem precisos. O mesmo acontece com a finalidade de troca e o domínio temático, que são especificados em função das “circunstâncias materiais” nas quais se desenrolam efetivamente. Assim, o dispositivo conceptual da SGC é transformado em dispositivo material significante. Trata-se de qualquer modo de uma “midiologização” do dispositivo conceptual. Este concerne tanto à materialidade do sistema semiológico (gráfico, fonético, icônico, visual, gestual etc.) como à situação de troca (monolocutiva ou interlocutiva), e também à situação do suporte de transmissão (papel, áudio-visual, eletrônico etc.).

Esse é um lugar de tipificação das situações de comunicação como variantes da SGC. Assim, diríamos que um político, candidato a uma eleição, se inscreve em uma situação específica de “candidatura eleitoral” ao endossar a identidade de candidato a uma eleição que se dirige aos eleitores ; ele é levado a produzir um discurso de sedução-persuasão em diversas “subsituações”, como um comício, uma manifestação de profissão de fé, uma declaração diante da equipe de uma grande empresa etc., mudando, a cada vez, de registro discursivo. Mas o mesmo político, já eleito, se inscreve em outras SEC de acordo com o modo como se dirige aos concidadãos em suas declarações televisivas, aos jornalistas em suas entrevistas coletivas, aos seus ministros em reuniões etc. Evidentemente que os discursos produzidos em cada uma dessas situações específicas serão diferentes.

Se, então, a SGC é o lugar de dispositivos conceptuais, a SEC é o lugar de dispositivos materiais de comunicação, que são subconjuntos dos primeiros : situações específicas de “candidatura”, de “comício”, de “entrevista coletiva”, de “comunicados ao Parlamento” etc., como subconjuntos do dispositivo conceptual “político” ; situações específicas de “classe”, de “manual escolar”, de “programas e instruções pedagógicas” etc., como subconjuntos do dispositivo conceptual “ensino” ; situações específicas de “boletins radiofônicos” de “jornal televisivo”, de “manchete de jornal”, de “editorial” de imprensa, de “reportagem” etc., como subconjuntos do dispositivo conceptual de “informação midiática”.

Evidentemente, as trocas de linguagens se realizam sempre em uma situação específica. Não há, portanto, situação global que não se concretize numa situação específica, mas esclarecemos igualmente que não há situação específica que ao dependa de uma situação global. Esta distinção, que não tem pretensão ontológica (ainda que pudesse tê-la), tem pelo menos uma virtude operatória que permite responder a dois tipos de questão : o que é um gênero ? Como um gênero muda ?

A questão dos gêneros do discurso é demasiado vasta para ser tratada aqui, mas podemos arrolar dados para uma resposta dizendo que o gênero não é determinado, ao contrário do que se costuma dizer, pelas características formais do discurso, mas antes pela situação que estabelece as condições de produção do discurso : um discurso é político, publicitário, administrativo, religioso, jurídico, midiático etc., inicialmente graças a essas condições de produção : o gênero é antes de tudo situacional. Resta saber quais são as características discursivas que lhe correspondem, e por isso nos propomos a distinguir gênero situacional de gênero discursivo.

Correlativamente, esta distinção permite compreender o jogo das variantes que se instauram no interior de um mesmo gênero situacional : a situação específica produz inúmeras variantes no interior de uma mesma situação global. Assim, para a questão frequentemente colocada de saber se podemos falar de um discurso político ou se devemos falar de vários discursos políticos, respondemos que existem várias situações específicas de discurso político, e todas obedecem à definição do dispositivo conceptual da situação global de comunicação política : discursos políticos no interior do discurso político. O mesmo ocorre para todos os tipos de discurso.

Correlativamente, ainda, esta distinção permite compreender que as SEC sejam mais instáveis, que elas possam mudar ou outras surgir em função da modificação das circunstâncias materiais de seu dispositivo, o que pode eventualmente influenciar a SGC. Assim ocorreu com o surgimento da tecnologia da Internet, que cria novas condições específicas de informação que pouco a pouco modificam os dispositivos midiáticos. Logo, nestas idas e vindas entre estes dois tipos de situação se produz, a longo prazo, mudanças dos gêneros. Mas isso requer intervenções dos sujeitos que mobilizam os discursos, o que veremos em seguida.

Concluindo, diríamos que as situações global e específica de comunicação constituem o ambiente que sobredetermina os sujeitos da linguagem (sujeito comunicante e sujeito interpretante). Esse ambiente é constituído por um conjunto de restrições que se impõem ao sujeito falante fornecendo-lhe instruções discursivas que ele deverá considerar em sua enunciação. É este conjunto que chamamos de contrato de comunicação, pois ele é a condição para que se estabeleça uma intercompreensão entre os dois parceiros de um ato de linguagem.

Essas instruções são ditas discursivas porque determinam os comportamentos de linguagem sem necessariamente prejulgar as formas linguísticas específicas que poderão ser empregadas. Não são dadas instruções linguísticas ou semiológicas que digam que palavras ou construção gramatical empregar, qual imagem, grafismo, cor ou gesto utilizar, porque isso é parte das escolhas do sujeito falante, mas sim que modos de organização do discurso (descritivo, narrativo, argumentativo), que composição textual ou para-textual, quais as seleções e organizações temáticas a mobilizar no discurso. Por exemplo, as instruções dadas pela situação de comunicação publicitária dizem ao sujeito que cria um anúncio que ele deve, de uma forma ou de outra, destacar o produto, expor ou sugerir os benefícios do produto para o indivíduo, em um domínio temático que concerne aos problemas que ele pode encontrar em sua busca de bem-estar individual (juventude, prestígio, saúde, aparência, prazer da sedução etc.). Mas essas instruções não dizem se é preciso configurar o slogan em forma alocutiva ou delocutiva, se é preciso sugerir as qualidades do produto argumentando desta ou daquela forma, se é preciso representar iconicamente o produto desta ou daquela maneira.

Assim, confundir situação de comunicação com situação de enunciação. A primeira reúne os dados externos ao ato de linguagem ; a segunda diz respeito à constituição discursiva do ato de linguagem. Como diz Bakhtin, é a situação que molda a enunciação.

4. O posicionamento do sujeito

Não vamos desenvolver esse ponto em demasia, pois nosso propósito foi, no contexto desse artigo, mostrar através de que tipo de modelo de comunicação podemos tentar articular o ato de linguagem com um “fora da linguagem” que o condiciona através da definição de três lugares de pertencimento e de uma teoria da situação de comunicação. Mas como um e outro implicam uma teoria conjunta do sujeito do discurso, temos que ir até as últimas consequências dessa concepção do sujeito, concepção que diz que ele tanto padece das restrições dos elementos da situação de comunicação como é relativamente livre para se posicionar perante ela. Vamos então nos contentar em esboçar esse segundo aspecto.

Antes de tudo, o sujeito da linguagem só pode ser concebido, como já dissemos, com base num princípio de alteridade que diz que o Ego (Moi) tem consciência de sua existência apenas na medida em que reconhece a existência de um outro que é ao mesmo tempo semelhante a ele e diferente dele. O que adicionamos a isso é o paradoxo de que quanto mais o outro se parece com o Ego, tanto menos o Ego existe ; quanto mais o outro se diferencia do Ego, tanto mais o Ego existe, mas numa relação de antagonismo que faz que o outro possa se apresentar como uma ameaça ao Ego. Disso advém a relação ambivalente de atração e rejeição que se instaura entre o Ego e o outro que, em um ato de troca de linguagem, se torna relação entre o Eu (Je) e o Tu : ora uma associação Eu-Tu que envolve os sujeitos num processo de coletivização que se configura num Nós, ora uma diferenciação entre Eu/Tu que envolve os sujeitos num processo de individualização que se configura num Eu diferente de tudo o que é não-Eu.

Assim, é a título de Eu-Nós que o sujeito se inscreve em uma situação de comunicação e deve assumir as instruções desta, e é a título de Eu/não-Eu que o sujeito desencadeia um processo de linguagem voltado para a individuação. Sua inscrição discursiva testemunha a dupla tensão entre o respeito aos dados da situação e a diferenciação no interior desses dados. Depois de ver quais são as restrições da situação de comunicação, como elas se organizam em diferentes níveis de encaixamento e como se convertem em instruções discursivas, estamos agora diante do problema de saber como o sujeito pode se diferenciar.

Digamos em segundo lugar que o sujeito, em um fenômeno de linguagem, é ao mesmo tempo um sujeito de saber e um sujeito relacional, sem que se saiba verdadeiramente a relação de interação que se estabelece entre os dois. O sujeito de linguagem vê-se assim entre duas tarefas : posicionar-se perante o saber e posicionar-se perante o outro.

Perante o saber, o sujeito se confronta com a questão da percepção e da apreensão conceptual do mundo através de diferentes sistemas de pensamento que organizam o saber sobre o mundo. Propomos considerar que esses sistemas de pensamento podem ser de duas ordens : da ordem do “conhecimento” como saber objetivado, exterior ao sujeito, que provém de uma experiência largamente compartilhada (se eu lanço um objeto no ar, ele cai) ou de um saber organizado (a lei da gravidade) ; da ordem da “crença” como saber subjetivado, interior ao sujeito, implicando um julgamento polarizado sobre o mundo (ele é boa pessoa se não humilha um inimigo). O sujeito deve se posicionar perante esses saberes utilizando os sistemas de conhecimento que ele dispõe e ativando os sistemas de crenças de que é portador. Estes são veiculados pelos discursos que circulam nas comunidades sociais e que se inscrevem tanto na memória coletiva como na memória de cada indivíduo. Apreender esses discursos é mergulhar numa intertextualidade a que se refere o dialogismo bakhtiniano. [3]

Perante o outro, o sujeito se confronta com a questão da validade da troca comunicacional em função de suas restrições. Propomos considerar que o sujeito age tentando responder a três tipos de questão : (1) o outro percebe o que me autoriza a falar (o que me legitima) ? Se ele não o faz, devo tentar parecer legítimo aos seus olhos ; (2) o outro crê em mim ? Se ele não o faz, devo tentar parecer crível ; (3) o outro aceita entrar em relação comigo e está pronto a aderir ao meu universo de discurso ? Se ele não o faz, devo tentar parecer amável com respeito ao seu lugar, para persuadi-lo e comovê-lo. Dito de outro modo, o sujeito, para se individuar, deve constituir estratégias de legitimação, de credibilidade e de captação por meio de uma determinada constituição discursiva.

As estratégias de legitimação - que não se confundem com a legitimidade, que é uma conquista atribuída antecipadamente pela situação de comunicação (ver as instâncias e identidades instauradas pela SGC e SEC) - são mobilizadas quando o sujeito falante não está certo disso ou quando ele pensa que ele não está suficientemente legitimado aos olhos de seu interlocutor. Ele poderá então insistir, conforme o caso, em seu espírito de seriedade, seu conhecimento de um domínio particular, sua experiência ou sua filiação, como o fazem muitas vezes os políticos em situação de campanha eleitoral.

As estratégias de credibilidade são mobilizadas quando o sujeito locutor quer que acreditem nele. Ele poderá então construir uma imagem de si, um ethos, de pessoa séria que raciocina com calma, é ponderada, sabe pesar os prós e contras, prova aquilo que diz, relata fatos comprovados etc. Assim, ele demonstra a todos o poder de persuasão de que é capaz.

As estratégias de captação são mobilizadas quando o sujeito, não estando em posição de autoridade perante o seu interlocutor (pois caso contrário, ele simplesmente lhe dará ordens), procura assegurar o interesse do interlocutor por aquilo que diz o compartilhamento de sua opinião ou a adesão irracional aos seus próprios sentimentos. Para fazer isso, ele pode usar uma manipulação discursiva que atinge o componente afetivo de seu interlocutor ao criar nele moções emocionais (efeitos de pathos) que o coloquem à sua mercê.

Concluiremos dizendo que esse modelo sócio-comunicacional é tanto é uma hipótese sobre o funcionamento do ato de linguagem como permite por meio de sua decomposição analisar diferentes aspectos seus : um sujeito do ato de linguagem desdobrado em identidade social e discursiva, ao mesmo tempo sob as restrições dos dados situacionais, tendente a se individuar recorrendo a estratégias discursivas, e cuja instauração em termos de linguagem produz um texto que é portador de efeitos de sentido possíveis, resultados de uma acumulação de co-construção de efeitos visados e de efeitos produzidos.

Assim, encerramos afirmando o que esboçamos acima, o jogo de vai-e-vem entre situação global de comunicação, situação específica e estratégias de individuação.

O discurso publicitário mudou entre seu início, quando lhe cabia, sobretudo, fazer existir um produto, os anos 1970-1980, quando lhe cabia, sobretudo, valorizar as qualidades e benefícios do produto em torno de um desejo, de um sonho, de uma fantasia, e a época atual, em que se constrói a cena publicitária independentemente do produto. Diríamos que as condições gerais do discurso publicitário, em seu dispositivo conceptual, são sempre as mesmas, mas que têm mudado, graças a estratégias de diferenciação, as condições do dispositivo específico de comunicação.

O discurso da informação também tem mudado. B. Miège descreveu bem suas diferentes fases. No século XVIII, uma imprensa de engajamento entre as elites que visava fazer com que as opiniões fossem partilhadas ; no século XIX, uma imprensa comercial de massa que visava um saber-fazer exaltando os valores do progresso social ; no século XX, as mídias audiovisuais de massa em meio a uma situação financeira que as fizeram voltar-se para os telespectadores, tentando tocar mais sua emoção que sua razão. E nós mesmos mostramos por meio do estudo coletivo do conflito da ex-Iugoslávia que a televisão desenvolve um duplo discurso, de um lado de dramatização, apelando exageradamente para o pathos, e, do outro, de consciência moral, interpelando os poderes políticos. Diríamos que as estratégias de captação tornaram-se progressivamente dominantes em um contrato de comunicação que, idealmente, deveria ser de “fazer saber”. E poderíamos acrescentar que o discurso político atual, graças ao aumento de poder da mídia televisiva, se pergunta quais estratégias discursivas de captação empregar, escolha que talvez termine por transformar a situação global de comunicação do político de modo que a finalidade não seja mais de propor ao cidadão um “projeto de idealidade social”, mas imagens identitárias do político e do cidadão.

Notes
[1] Essa expressão tem sido usada para traduzir “enjeu”, no sentido do autor, por vários pesquisadores brasileiros. N.R.
[2] Segue-se aqui o mesmo critério. N.R.
[3] Como se sabe, o termo “intertextualidade” não é da teoria de Bakhtin. N.R.
Pour citer cet article
Patrick Charaudeau, "Um modelo sócio-comunicacional do discurso : entre situação de comunicação e estratégias de individualização", in Grenissa Stafuzza e Luciane de Paula (org.) Da análise do discurso no Brasil à análise do discurso do Brasil, Edufu, Uberlândia, 2010., 2010, consulté le 22 novembre 2017 sur le site de Patrick Charaudeau - Livres, articles, publications.
URL: http://www.patrick-charaudeau.com/Um-modelo-socio-comunicacional-do.html
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